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PELOTENSE: O RÁDIO E SUA HISTÓRIA
 
Quando em 1924 o intendente Pedro Luiz Osório completou quatro anos de administração no município de Pelotas, o balanço de suas obras e realizações apontava para investimentos da ordem de dois mil trezentos e dezesseis contos de reis.
Era governante de próspera cidade, interessado na questão da salubridade, voltado para a canalização dos pequenos cursos d’água que a cruzavam e o tratamento de banhados pantanosos próximos ao centro.
Para comparação de valores e confirmação de eternos debates da vida nacional, vale transcrever notícia de época, publicada nos jornais: “Situação Financeira. Discurso Sensacional. Rio – O deputado Cardoso de Almeida pronunciou importante discurso sobre a situação financeira fazendo severa análise. Falando sobre a dívida externa, disse que o Brasil não pode, não deve e nem solicitará nova moratória. A seguir, joga com os algarismos da receita e da despesa apontando o caminho a tomar para atender em 1927 o início das amortizações da dívida externa. Estuda o caso da emissão de papel e ações do Banco do Brasil e conclama com a sensacional reclamação de que no início do atual quatriênio o governo teve de reconhecer uma dívida de mais de 800 mil contos do Banco do Brasil sem saber quem autorizou semelhante compromisso e onde foi aplicada tão grande soma.
SABER E LAZER
Em 1925 a Diretoria da Intendência Municipal de Pelotas procedia o levantamento do censo escolar no município. O primeiro resultado parcial mostrava um total de 6.697 alunos matriculados em 122 salas de aula. A perspectiva para o resultado final era de 7.200 estudantes nos três graus de ensino.
A população divertia-se com os espetáculos “caprichosamente confeccionados”, os filmes de “primeira exibição”, nos cinemas Ponto Chic, Popular, Coliseu, Arco Íris, Teatro Sete de Abril e Guarani, todos dotados de “moderníssimas instalações contra incêndio”.
As famílias reuniam-se no Clube Comercial, no Diamantinos, no Caixeral, na União Republicana, no Congresso Português, no Grêmio Republicano Português, no Recreio dos Artistas e no Palace Clube “o mais luxuoso e confortável centro de diversões do Estado, apresentando todas as noites magnífico ato com artistas de renome internacional”.
As notícias eram distribuídas através de três jornais e três semanários. O movimento financeiro acontecia através de seis bancos, um com matriz local, o Pelotense, mostra do potencial de um município então colocado em sétimo lugar entre os de maior renda no país.
CONVERSA DE BALCÃO
Na rua Floriano, em pleno centro comercial, um loja anunciava “completo sortimento de louças comuns e de granito, artigos de vidro, porcelana, cristais e louça ágata, lampiões e acessórios, artigos de ferragem etc.”. Tinha um nome poético o estabelecimento Palácio dos Cristais. Atrás do balcão um homem capaz de sonhar e de realizar: Carlos Sica.
Naquele tempo, havia ainda o ameno encontro diário entre amigos, ora num ora noutro estabelecimento comercial. Das reuniões no Palácio dos Cristais participavam Alexandre Gastaud, João Abrantes, José Luís Pinto da Silva, Antônio Nogueira Filho, Tobias Sica e o proprietário.
Ali eram comentados os problemas da cidade, do país e do mundo, ao sabor das opiniões do dia.
Seguramente, não devem ter passado despercebidas notícias como esta de 8 de junho de 1925: “A revisão constitucional está na ordem do dia. Os jornais debatem, em artigos e entrevistas, vários pontos reformáveis. Lauro Sodre mostra-se receoso de que a reforma torne-se verdadeira deformação, dada a perturbação dos espíritos, agravada pela falta de ampla liberdade de manifestação do pensamento. Ou esta: O cardeal Ascelece de Napolis escreveu violenta pastoral contra a moda. O prelado condena vestidos sem manga e sem gola e os tecidos muito tênues que servem apenas para disfarçar ligeiramente as formas do corpo humano. Diz que o senso moral das moças está pervertido e que elas estão se desvestindo como selvagens. Pergunta o cardeal se elas não se envergonham quando o povo diz que estão voltando, pouco a pouco, às modas do paraíso”.
Foi nesta época, no Palácio dos Cristais, em Pelotas, que se aventou seriamente a possibilidade de concretização de um projeto audacioso e pioneiro: a criação de uma emissora de rádio.
RÁDIO & PUBLICIDADE
Anúncios da época caracterizam a publicidade de então, a imagem do rádio e a influência que emissoras estrangeiras exerciam no sul do Brasil: “Rádio o fator mais poderoso da cultura do povo. As estações de broadcasting esmeram-se para oferecer aos possuidores de aparelhos receptores, escolhidos programas musicais e culturais mediante audições cada vez mais seletas. Vossa Senhoria, sua família, seus amigos podem ouvir diariamente as obras mestras dos gênios musicais e estar a corrente das últimas notícias do progresso da ciência, literatura, etc
Que rico tesouro tem o dono de um receptor. Hoje mesmo procure instalar um dos que vende a Casa Dayton.”
Na década de vinte, além de emissoras como a Rádio Sociedade e Rádio Clube do Rio de Janeiro, os aficionados eram convidados a ouvir “os monumentais concertos sinfônicos do Conservatório Santa Cecília de Buenos Aires”, as programações da rádio El Dia de Montevidéu, no conforto morno do próprio lar, nas noites de inverno, enquanto lá fora o frio corta”.
E como chegar a casa “Dayton” em busca do tesouro?
“Se V. Sa. está interessado em obter um bom aparelho receptor, faça o seguinte: quando subir a rua 15 e chegar a esquina da rua 7, dobre a direita e quando descer dobre a esquerda. Vereis então, no meio da quadra, um dos maiores edifícios, pintados de amarelo vivo: Casa Dayton”.
Tal como nos lendários mapas de tesouros.
FUNDAÇÃO
Nesse contexto, no Palácio dos Cristais, estabelecia-se a estratégia de fundação da Rádio Pelotense.
As responsabilidades deveriam ser divididas. Gastaud seria o técnico, os demais, responsáveis pela adesão da comunidade à concretização do empreendimento. E assim que dia 6 de junho de 1925, os seis pioneiros se reuniram e fundaram a Sociedade Rádio Pelotense, primeira do Rio Grande do Sul e terceira do Brasil. A eles de imediato iriam juntar-se cerca de cem entusiastas para levar avante o projeto.
Dia 6 de julho de 25, o jornal A Opinião Pública divulgava: “Sabemos que o senhor Dr. Augusto Simões Lopes, ilustre intendente do município, cedeu uma das salas da Escola de Agronomia para a instalação da estação transmissora e receptora da Sociedade Pelotense, recentemente fundada nesta cidade e que conta já com grande número de sócios”.
Alexandre Gastaud construía com entusiasmo o transmissor que, por muitos anos, haveria de popularizar a cultura sul-riograndense através do rádio. De tal forma que, no dia 25 de agosto de 1925, era divulgada a mensagem inaugural da emissora pioneira, na voz do locutor Alberto Gomes.
Naquele momento, o grupo de idealizadores que a concretizaram, talvez se deixassem impressionar mais pela originalidade do empreendimento do que por sua imensa potencialidade, mas a contemplação admirada durou apenas um instante. Logo, foi sucedida pela compreensão da imensa responsabilidade que a posse daquele instrumento de difusão representava. De tal sorte que, desde a primeira direção, norteada por Baldomero Trapaga e Carlos Sica, a Pelotense viu-se norteada no sentido da cultura e da informação.
O PRESENTE
Desde que pela primeira vez foi ao ar, a Pelotense certamente mudou, assim como mudaram os tempos.
Multiplicaram-se os receptores aos milhões. As velhas galenas sobreviventes jazem em sótãos e porões.
A sede da emissora transferiu-se para dependências do Clube Comercial, posteriormente para o “Casarão da Félix da Cunha”. Hoje, está localizada em amplo edifício próprio, no centro da cidade, com exemplar parque técnico na Praia do Laranjal abrigando seu transmissor de 10 kw, digitalizado, o mais potente da região.
Persistem os ideais de seus fundadores: a compreensão da extraordinária função social da rádio, a identidade e interação da empresa com os interesses da população.
O espírito de servir, de aproximar os homens, aquele profundo traço de honestidade, o espírito pioneiro, a determinação de vencer estão mantidos na equipe de funcionários e na filosofia da direção sob a responsabilidade de Paulo Góz.
Sempre inovando sua programação e buscando aperfeiçoar-se cada vez mais, a Rádio Pelotense caracteriza-se como uma rádio que informa e avança na análise de temas locais e nacionais, incitando as lideranças ao debate e a população a participar na solução de seus problemas e esclarecimento de dúvidas, além de levar alegria e entretenimento através de programas musicais que cotam com a participação dos ouvintes de toda z Zona Sul. 80 anos depois, cultura, informação,ação e entretenimento, assim como queriam seus fundadores. O grande instrumento, no dizer de Roquete Pinto, capaz de modificar o mundo se usado com alma e coração...

 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 
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